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Lovecraft Country não é o herói que merecemos, mas o que precisamos

Por Cris Guerra

26 de outubro de 2020

Baseada no livro de mesmo nome, escrito pelo autor Matt Ruff, que por sua vez se inspirou na obra do autor racista H.P Lovecraft, a série da HBO, Lovecraft Country é um presente para fãs de terror. Especialmente para fãs negros de terror.

Ambientada na Chicago de 1950, em um mundo onde a magia e monstros são reais. Lovecraft Country traz a história da família Freeman. Nossos protagonistas são obrigados a enfrentar não só o terror do sobrenatural, como também os horrores da segregação e do racismo. Classificar esta série apenas como uma série de terror seria diminuir o trabalho excepcional de Misha Green (desenvolvedora da série) em abordar temas tão complexos e intrínsecos na dor da população negra estadunidense de forma sensível e poética.

Não me entenda mal, Lovecraft Country é sim uma série de terror, com tudo de pior (no melhor sentido possível) que o gênero tem a oferecer, cada episódio traz em si, elementos do gênero de forma excepcional.

As vidas que sobrevivem a Lovecraft

No primeiro episódio, Sundown, acompanhamos os protagonistas em uma jornada para encontrar o pai desaparecido de Atticus Freeman, e recebemos um thriller psicológico com uma execução primorosa, por incluir não apenas os Shoggoths como elemento de terror, mas também a polícia racista, como uma ameaça ainda maior para nossos protagonistas.

Fazendo uma referência às “cidades do por do sol”, onde pessoas negras, até hoje, são fortemente encorajadas a não permanecer após o sol se pôr, o episódio tem uma das melhores cenas de perseguição que eu já tive o prazer de assistir. Um início brilhante, para uma série que desde sua estreia não teve sequer um episódio aquém no quesito performance.

A narrativa, que em cada episódio tomou uma estética própria para dar forma ao que tinha a dizer, nos trouxe sempre uma performance incrível do elenco, assim como da equipe técnica. Nós tivemos monstros, cultos, sociedades secretas, casa mal assombrada, gore, aventura e até arriscamos um pouco na space opera, mas acima de tudo, Lovecraft Country, é um drama familiar de encher os olhos de qualquer um capaz de apreciar a narrativa em seus detalhes.

E esse foi um dos meus aspectos favoritos da temporada de estréia da série, o uso do sobrenatural trazendo para nossas telas histórias reais, personagens palpáveis e um sentimento de coração apertado de todas as piores e melhores formas possíveis.

A ancestralidade trabalhada ao longo dos episódios, chega em seu clímax no nono episódio da série, Rewind 1921, quando nossos protagonistas, Leti, Atticus e Montrose, voltam no tempo para o Massacre de Tulsa, a fim de recuperar um artefato mágico. Em meio ao caos, os personagens são obrigados a encarar seu passado, e o peso do trauma intergeracional carregado pela família Freeman.

Dito isso, acho importante ressaltar a performance espetacular de Michael K. Williams, responsável por dar vida a Montrose, não só nesse episódio, mas ao longo da série.

Montrose Freeman, é sem sombra de dúvidas um dos personagens mais complexos e humanos que eu já tive o prazer de encontrar, mas o texto não seria o mesmo sem a atuação perfeita que Williams nos entrega. Sua relação com o filho, seu passado e sua sexualidade, trás para a tela debates importantíssimos sobre a masculinidade de homens negros e a vulnerabilidade que nós, como sociedade, negamos aos homens negros. Um dos pontos altos do arco do personagem para mim, foi no quinto episódio da série, Strange Case, onde apesar de não ter uma fala, a emoção que o personagem passa é extremamente tocante.

Um outro ponto que não posso deixar de mencionar é o elenco de personagens femininas negras, complexas e diversas, presente na série. Cada uma delas fortes, inteligentes, sensíveis, complexas, complicadas e, principalmente, reais.

Todos os episódios focados nas mulheres de Lovecraft Country, possuem um lugar especial no meu coração de expectadora. Os conflitos apresentados entre elas, e com elas mesmas, mostram, com uma delicadeza e sensibilidade ímpar, o que é carregar essa vivência particular que é ser uma mulher negra em uma sociedade racista e patriarcal, onde somos duplamente atravessadas por violências.

As mulheres não-brancas de Lovecraft Country, carregam e narram suas histórias com classe e a segurança de se permitirem sentir da forma intensa que muitas vezes nos é negada. Elas se permitem ser, e isso, por si só, já é um ato de rebeldia.

As vidas que sobrevivem a supremacia branca

Outro tema brilhantemente abordado pela série é o imperialismo estadunidense, apresentado principalmente no sexto episódio, Meet Me in Daegu. Protagonizada por Ji-ah é majoritariamente falado em coreano (obrigando estadunidense a ler legenda, o que é sempre EXCEPCIONAL) rompendo com o mito hollywoodiano de que em todos os lugares do mundo a língua inglesa é falada amplamente entre nativos.

O episódio mostra os efeitos da invasão bélica dos Estados Unidos na Guerra da Coréia, em 1950, pelos olhos de uma mulher local. Este episódio em especial, além de nos apresentar com mais profundidade a Ji-ah, também trás uma subversão importante em Atticus, que até então era o herói de nossa história, ao nos mostrar, explicitamente, os crimes de guerra cometidos por ele enquanto servia ao exército. Essa decisão narrativa, adiciona ainda mais camadas ao personagem, e ainda mais importante que isso, não o absolve de sua culpa de modo simplista.

Para além de tudo isso, se eu ainda não te convenci a assistir, a série é acima de tudo uma aula, para quem estiver disposto a aprender.

Desde as referências estéticas que replicam, em detalhes, as fotos de Gordon Parks, que retratam a vida de pessoas negras estadunidenses durante a segregação a trechos de discursos de grandes intelectuais negros como James Baldwin. De Sun Ra à jovem ativista Naomi Wadler, cada episódio de Lovecraft Country eleva vozes negras e mostra abertamente a potência que temos como indivíduos, assim como coletivamente (no final do texto trago algumas das referências mencionadas ao longo da série). Fazendo com que, mesmo aqueles que só assistem a série pelo susto, parem e ouçam o que temos a dizer.

O último episódio fechou a temporada sem pontas soltas. Apesar do ritmo um pouco apressado, cada segundo foi muito bem aproveitado, dando um desfecho digno para uma temporada de estréia excelente.

Apesar do final agridoce e longe de ser o final que desejávamos, como o próprio nome do episódio diz, foi um ciclo fechado, mas que deixou aberta ainda a possibilidade de uma segunda temporada. Estou ansiosa para ver o que nos espera em uma segunda temporada, e acredito firmemente que Misha Green não nos decepcionará.

Lovecraft Country, é a cima de tudo, uma série sobre o poder e a potência contida em corpos negros, e como, nossas vozes, nossa raiva e principalmente, nosso amor sempre vai nos impulsionar e nos ajudar a seguir em frente.

PS.: Se alguém souber onde posso adotar um shoggoth, estou fortemente interessada.

Textos referenciados em cada episódio da série
Episódio 1 – James Baldwin Debates William F. Buckley (1965)
Episódio 2 – Gil Scott-Heron – Whitey On the Moon (Official Audio)
Episódio 3 – Leiomy Maldonado For Nike NYC Be True Campaign
Episódio 5 – For Colored Girls Who Have Considered Suicide/When the Rainbow Is Enuf por Ntozake Shange
Episódio 6 – Judy Speaks
Episódio 7 – Sun Ra, Space is the place, 1974
Episódio 8 – 11 year-old student Naomi Wadler speaks at March For Our Lives Rally
Episódio 9 – Sonia Sanchez reads “Catch the Fire”