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“Fantasma” mostra a importância de nos compreendermos enquanto indivíduos e comunidade

Por Sérgio Motta

27 de maio de 2020

O problema é que não dá pra fugir de nós mesmos. Infelizmente, ninguém consegue correr tão rápido.

“Fantasma” é um livro rápido de ler, mas nem tão fácil de fugir.

Embora gere aquele gostinho de “quero mais” não gera o de “precisava de mais”, pois tem mais — e não falo dos outros livros da série sobre a perspectiva de outros personagens (ainda não publicados em português). Mas “Fantasma” por si continua ecoando e gerando reflexões após fechá-lo. Principalmente sobre a compreensão de nós, negros, enquanto indivíduos e enquanto comunidade. E para não-negros, a compreensão do outro e da sociedade.

O grande mérito de Jason Reynolds, autor do livro, é colocar essa pulga atrás de nossas orelhas sem ir pelo caminho da narrativa dramática, tratando de questões intragáveis ou discursos politizadores. O livro corre para o exato lado oposto.

Todos nós somos Fantasmas

Castle Cranshaw, o auto-apelidado Fantasma, é apenas um garoto que vive uma rotina simples de ir à escola, ler recordes do Guinness Book, comer sementes de girassóis e assistir comédias românticas com a mãe após o jantar. Mas Fantasma acumula traumas, tem uma saúde mental debilitada, é desumanizado, se sente só e tem dificuldades em se aceitar.

Eu queria dizer pra ele que tinha ficado preso em uma máquina do tempo que me levou de volta ao momento mais assustador da minha vida, mas não falei nada porque sabia que ninguém ia acreditar em mim.

O apelido Fantasma não era à toa. Ele perambulava por aí, mas sempre só, invisível, intangível e sempre temendo a si mesmo. Fantasma começou a correr quando seu pai, bêbado, após uma discussão com a mãe, atirou em ambos no meio da rua. Fantasma e a mãe correram, correram e correram.

Desde então, fugia de seu quarto, pois lembrava de sua mãe o acordando para que saíssem de casa antes de seu pai disparar. Tinha uma figura paterna de confiança, o senhor Charles, o vendedor de sementes de girassol, que protegeu ele e a mãe em sua loja, mas jamais se abria com ele. Tinha amigos na escola, que tampouco contava seus segredos e traumas. Dizia querer ser o melhor jogador de basquete, mas nunca tentou jogar. Fantasma não participava de nenhum grupo, nunca estava incluído.

O que Fantasma sintetiza, é a forma que as pessoas negras são vistas na sociedade, isoladas, vigiadas, violentadas física e psicologicamente todos os dias. A forma que nos sentimos e como tudo isso influencia na nossa estrutura emocional e psicológica.

Este livro mostra que o que nos diferencia não é a cor. É a oportunidade. A falta de aceitação e confiança. Pois, se não precisarmos tentar fugir o tempo todo para sobreviver, se tivermos uma chance de mostrar quem somos, nós mostramos. Bastou que Fantasma fosse aceito por um grupo, fosse tratado como um ser humano e ele pôde se reconhecer e se descobrir.

Foi nessa hora que o treinador começou o discurso chato sobre o orgulho que sentia de nos ter na equipe e como aquela temporada seria ótima. Ele disse que todos nós éramos promissores. Bom, isso era uma coisa que eu nunca tinha ouvido. Que eu era promissor.

A única maneira que tenho para definir “Fantasma” é: uma leitura leve de uma tarde que pesa pela vida toda.

Você não pode fugir de quem você é, mas pode correr na direção de quem quer ser.

Ficha técnica

Autor:  Jason Reynolds
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 208
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