“Filhos de sangue e osso”, uma fantasia para nós

Livro Filhos de Sangue e Osso, por Tomi Adeyemi

Por Sérgio Motta

18 de outubro de 2019

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Pense em um livro de alta fantasia que você já leu.

Agora vou adivinhar como ele é: a história se passa numa versão medieval da Inglaterra, onde as lendas, criaturas e magias são baseadas em culturas e crenças do leste europeu, mas também embasadas em valores cristãos. Os personagens são todos brancos, as mulheres são objetificadas e precisam ser salvas e o protagonista, ainda que não seja forte no começo, é benevolente e tem uma moral infalível.

Provavelmente o livro que você pensou tem ao menos um desses elementos. Talvez tenha todos. Se não tem nenhum, é possível que pensamos no mesmo livro: “Filhos de sangue e osso”.

Aliás, “Filhos de sangue e osso” vai totalmente contramão de todos esses clichês herdados da obra de Tolkien. Estamos falando de um mundo de alta fantasia baseada em África, de magia que vem dos orixás, de todos os personagens negros, de mulheres que se tornam independentes, mas que também falham e aprendem, choram e amam, sentem inseguranças e se fortalecem. Tudo que nos faz se aproximar ainda mais da obra e dos personagens.

Mas não é só isso que faz Filhos de sangue e osso diferente.

“Medo.
A verdade corta como a faca mais afiada que já vi.
Não importa o que eu faça, eu sempre estarei com medo.”
“Não vou deixar sua ignorância silenciar minha dor.”

De preto para preto

O charme da fantasia e da ficção especulativa está além das aventuras, combates, poderes e montros. Está na conexão. Quando conseguimos nos relacionar com um protagonista tão próximo a nós, inserido em um mundo fantástico, faz com que embarquemos naquele mundo, como se nós vivenciássemos as aventuras e desventuras dele. A fantasia nos permite sonhar.

O problema é que em quase cem por cento dos casos, essa conexão é de branco para branco. Com quantas histórias já não nos deparamos em que o protagonista comum embarca em uma jornada de crescimento para, após tentativas e fracassos, vencer barreiras, aprender com os erros, enfrentar e superar desafios e provar-se um vencedor? A famosa jornada do herói. Ou meritocracia. Não importa, ambos são pensados de brancos para brancos.
E Filhos de sangue e osso é outra coisa.

“Sem magia, eles nunca nos tratarão com respeito. Precisam saber que podemos revidar. Se queimam nossa casa… Eu queimo a deles também.”

É sobre sobrevivência, sobre medo, sobre reconhecimento. Sobre o mínimo para ser humano. E sobre ser negro. E sobre ser negro brasileiro.

De áfricas para brasis

“Você nos esmagou para construir sua monarquia sobre o nosso sangue e ossos. Seu erro foi nos deixar vivos. Foi pensar que nunca revidaríamos!”

Embora Tomi Adeyemi tenha nascido nos Estados Unidos e seja filha de nigerianos, a ideia de Filhos de sangue e osso nasceu em Salvador. Na faculdade, ela fez intercâmbio no Brasil para estudar mitologias da África ocidental e diáspora. Foi quando conheceu a cultura yorubá, os orixás e as religiões afro-brasileiras.

Livro Filhos de Sangue e Osso, por Tomi Adeyemi

Foi assim que ela criou o universo de Orisha. Na história, a magia utilizadas por majis — divinais cuja magia fora despertada, filhos dos deuses baseados nos principais orixás do Candomblé Ketu — fora banida de Orisha pelo rei e todos os majis, mortos.

Apenas as crianças divinais foram deixadas vivas. Para serem odiadas, rejeitadas, viver a opressão, o preconceito, serem tratados como vermes até não quererem mais existir.

Não é só a base no candomblé que relaciona Filhos de sangue e osso com a população afro-brasileira. Mas, principalmente, nossas vivências.
Racismo, machismo, intolerância religiosa, hipersexualização, violência policial, xenobia, solidão, medo, miséria… por outro lado, esperança, comunidade, fraternidade, família, busca pela ancestralidade, luta, paixão.

Tomi Adeyemi reflete todos os traços que encontramos na vivência do negro no Brasil que nos deixam aflitos, mas também nos revigoram.
Ainda não te convenci que “Filhos de sangue e osso” é um reflexo do negro brasileiro? Recentemente, resenhamos “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s. Vejam esse trecho da música Mágico de OZ:

“Se diz que moleque de rua rouba
O governo, a polícia no Brasil, quem não rouba?
Ele só não têm diploma pra roubar
Ele não se esconde atrás de uma farda suja”

Agora, esta citação de “Filhos de sangue e osso”:

“Seu povo, seus guardas… eles não passam de assassinos, estupradores e ladrões. A única diferença entre eles e os criminosos são os uniformes que usam.”

A grande diferença entre elas é uma estar em verso e a outra não. A grande semelhança é serem sobre nós.

Um apelo a escritores negros brasileiros

Precisamos de mais!

“Filhos de virtude e vingança”, segundo livro da saga, será lançado ainda este ano em inglês. Mas ainda não é o suficiente. Precisamos de mais ficções especulativas de pretos para pretos, de áfricas para brasis.
O afrofuturismo é especial porque nos propicia algo que não nos era permitido: sonhar. Por isso, deixo um apelo aqui para termos mais autores afro-brasileiros escrevendo nossas fantasias.

Já há nomes fortes no afrofuturismo nacional, como Fábio Kabral, autor de Ritos de passagem, O Caçador cibernético da Rua Treze e A Cientista Guerreira Do Facão Furioso) e Lu Ain-Zaila, autora de Sankofia e da duologia Brasil 2408. Além de figuras vindouras, como Ale Santos, que ficou conhecido por suas threads no Twitter sobre histórias não contadas do povo negro, embarcou na ficção especulativa com “Cangoma”, em Todo mundo tem uma primeira vez); Sérgio Motta, que recém-publicou o conto “Spider” na Strange Horizons, uma das maiores revistas de ficção científica e fantasia do mundo; e Waldson Souza, pesquisador de afrofuturismo e autor de “Oceanïc”, que será lançado em breve pela editora Damme Blanche.

Mas ainda é pouco. Ainda podemos contar os nomes (aliás, nos indiquem os autores nacionais negros de ficção especulativa que vocês conhecem!). Poucos nomes para as tantas histórias e sonhos que temos para contar. Se tem um apelo em neste livro, é para que crescemos e multipliquemos. Para que mostremos ao mundo as fantasias das ricas culturas e vivências afro-brasileiras.

Pois nós somos os filhos de sangue e osso.

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