Na literatura, o preto não é básico; é clássico

Na literatura, o preto não é básico; é clássico

Por Sérgio Motta

7 de abril de 2020

Em fevereiro, durante o Black History Month (Mês da História Negra) a Barnes & Noble, maior livraria dos EUA, lançou a coleção “DiverseEdition” (foto acima), com personagens negros ilustrando a capa de livros clássicos. A intenção era promover a diversidade na literatura. Mas diversidade para quem? Os tais clássico eram os mesmos de sempre: personagens brancos em culturas eurocêntricas.

Colocamos no desafio do #LeituraPreta de abril, um livro clássico da literatura negra. Mas, quando a maior livraria dos EUA faz uma campanha desse tipo, soa como se não tivéssemos clássicos para ler. Será que realmente não existem clássicos na literatura negra?

Para responder, primeiro precisamos definir o que é um clássico. E não é simples. Assim como arte, existem mil delas. Sociológicas, políticas, filosóficas, jornalísticas, pessoais, impessoais. Algumas delas convergem e há quem diga que arte é o que é clássico e vice-versa.

Arte, porém, vem do latim ars; equivalente em grego para tékne. Ou seja, arte, pela origem, é técnica. As formas e funções que são utilizadas para criar ou produzir algo.

As concepções mudaram, como sabemos. Sobretudo pós-Revolução Industrial, em que a “técnica” se tornou mecânica e massiva, fez-se necessário diferenciar o que é arte e o que é produto — daí, nasce o design. A arte tem qualidades que a difere de produto: o que é manufaturado, único e contém uma mensagem identitária do autor da obra.

Contudo, produtos também podem ter estas qualidades e arte também pode ser produto, o mundo é complexo. Talvez consigamos separar arte de produto com a seguinte proposta: uma obra de arte é uma assinatura de seu tempo, que transcende as épocas, que se torna um capítulo da história humana; e é aqui que a definição de arte se aproxima do que chamamos de clássico.

É, o clássico envelheceu mal

Tudo muda quando incluímos um fator na equação: a negritude.

Costumamos ver dois cenários: obras que são ignoradas enquanto clássicas, ou artistas que são ignorados enquanto negros. Machado de Assis, Mario de Andrade e Alexandre Dumas, por exemplo; escritores impossíveis de se ignorar, conhecemos suas obras na cultura popular, na escola, porém não sabíamos até recentemente como autores negros (e ainda não é um conhecimento disseminado). É como embranquecer o Antigo Egito, berço de todas as civilizações.

Já aqueles que escrevem sobre vivências negras, mesmo que sejam considerados atualmente importantes do ponto de vista histórico, como Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis e Solomon Northup, raramente figuram as principais listas de clássicos apreciados e estudados na academia. É como desconsiderar que os kushitas seja o verdadeiro berço de todas as civilizações — inclusive, da própria civilização egípcia — por serem um grupo étnico muito mais escuro.

É aqui que arte e clássico se divergem: na sociopolítica. Clássico vem do latim classicus, uma palavra usada pra designar algo pertencente a mais alta classe romana, algo que é de primeira classe em um contexto elitista, imperialista, branco, europeu. Por esta definição, aos escritores negros, falta a classe. A classe é o embranquecimento de suas imagens, vivências, visões e valores.

“A gente combinamos de não morrer”

Gosto mais de outro significado, mais simples, rasa, poética, nada acadêmica e, ainda, completa: “clássico é aquilo que não morre”. Conceição Evaristo publicou em “Olhos d’água”, um dos mais belos — e clássicos — contos da literatura brasileira, que carrega no título nossa escrevivência, sobrevivência e resistência. A gente combinamos de não morrer quando decidimos atribuir a “negro” e “preto” significados grandiosos, diferente do que uma sociedade construída sobre a supremacia e desumanização racial espera.

Os clássicos negros existem. Eles são os livros que temos, as obras que contam nossa história, que nos representam. A literatura negra é clássica por si. Não dependemos que a academia os catalogue, não precisamos que passem séculos para reconhecê-los como tal. O império romano já caiu e tem tempo. É importante que demos o devido mérito a autores negros, pois eles nos trazem marcas históricas que quase não são contadas e disseminadas. É importante que definamos nós mesmos quais são os nossos clássicos e que os leiamos.

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