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“Redemoinho em dia quente” mostra o poder das histórias múltiplas

Por Sérgio Motta

27 de dezembro de 2019

Homogeneizar determinados grupos de pessoas — sobretudo quando são marginalizados e fora do padrão imposto — é historicamente violento, como mostra Chimamanda Ngozi Adichie em “O perigo de uma história única”. Ao passo que mostrar a pluralidade de vivências e valores dentro dentro desses mesmos grupos é poderoso e vivo.

“Apareceu como um redemoinho em dia quente, levantando a terra toda.”

Em “Redemoinho em dia quente”, Jarid Arraes nos apresenta trinta contos mostrando as crenças, valores, experiências e visões de mundo de diferentes mulheres do Cariri. Todas interessantes, únicas e, ao mesmo tempo, também com certas semelhanças da macro-cultura que as envolve.

Capa de "Redemoinho em dia quente", livro de Jarid Arraes.

Nos deparamos com trinta histórias que não vemos no cinema, na televisão, que não se encaixam nas seis histórias que Hollywood sempre conta. Nos deparamos com trinta histórias que podemos nos conectar, embora raramente conheçamos ou damos alguma importância para elas. Lemos histórias de mulheres que vivem o dilema de se assumir enquanto bissexual, de sobreviver à pobreza, de lidar com traumas, com relacionamentos abusivos, de viver a sua fé e devoção, de mulheres que se despedem e que retornam e que lidam com os obstáculos e preconceitos do dia a dia.

quenga
substantivo feminino

1. mulher que tem as unhas muito compridas, que usa batom muito chamativo, que usa a cor vermelha, que anda batendo salto como se fosse cavalo, que não vai nas reuniões de pais e mestres e tem perfume muito doce ou muito forte ou usa muito perfume mesmo.
2. mulher que, segundo minha mãe, pode ser qualquer uma.
3. o que minha mãe, de acordo com a boca do povo, parece ser.

O Cariri é aqui

E não são apenas com essas mulheres que nos conectamos, mas com o Cariri em si. Uma região a 450km da capital cearense, que soma em seus 11 municípios, 600 mil habitantes e protagonista de 30 histórias. O Cariri que Jarid Arraes nos mostra é real, mas é fantasia também. É onipresente e surpreendente. É tão personagem quanto uma Westeros de Game of Thrones ou Hogwarts de Harry Potter. Com uma diferença: é muito mais viva.

Como a própria autora diz em entrevista ao Metrópolis, “as suas raízes, se você arrancar, você morre”. O Cariri, para Jarid Arraes, é síntese de sua escrevivência. 

A classe de Jarid Arraes

Para além das histórias, esse paradoxo subjetivo entre singularidade e semelhança são identificáveis na escrita de Jarid, seja em cordéis, poesias ou prosas. Cada conto de “Redemoinho em dia quente” é uma experiência de tom, ritmo, estrutura narrativa, falares regionais. Mas enquanto também podemos notar a voz da autora permeando entre eles. E o resultado, como toda a obra de Jarid, é simplesmente encantador.

Jarid Arraes é uma autora clássica. Uma escritora que perdurará na literatura brasileira e sendo estudada como clássico nas escolas e universidades dentro de algumas décadas. Lê-la agora, é viver a história da literatura nacional.

Capa de "Redemoinho em dia quente", livro de Jarid Arraes.

Ficha técnica

Título: Redemoinho em dia quente
Autora: Jarid Arraes
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 128
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