Representação é diferente de representatividade!

Representação e representatividade: entenda a diferença!

Por Olívia Pilar

10 de julho de 2020

Entender as diferenças e as aproximações das noções de representação e representatividade não é um caminho fácil (ou rápido). É, inclusive, um dos percursos que estou atravessando enquanto mestranda, já que essa busca faz parte de uma das minhas principais perguntas de pesquisa. Essa é, portanto, uma forma bem resumida de dizer que talvez eu não consiga expressar totalmente aqui todas as minhas percepções acerca deste tema. Mas tentarei!

Muitas vezes quando pedimos por uma maior presença de pessoas negras (insira aqui qualquer outra minoria social) em diversos produtos culturais –– como a literatura, a televisão e o cinema –– utilizamos a palavra representatividade. É comum que aconteçam duas coisas ao se referir a esse termo: 1. pedir por mais 2. reclamar do que já está posto ali. Mas este texto pretende abordar uma perspectiva que, para mim, é a mais relevante (e a intersecção desses dois caminhos): representação não é o mesmo que representatividade.

Essa minha afirmação parte de algumas concepções, uma base teórica grande demais para este texto. (Continuando). Quando pedimos por apenas uma presença –– de personagens negros (por exemplo) –– em determinada obra estamos dizendo de representação. Representatividade requer camadas a mais! E é por isso que a presença acaba se tornando problemática em alguns casos.

É importante ressaltar que a ausência é um fenômeno  que deve ser sempre questionado. É preciso que estejamos em algo, para existirmos, certo? Mas nem sempre ela deve ser o ponto final do que chamamos de representatividade. Ela é, sim, uma parte importante  –– principalmente quando estamos dizendo de contextos em que a existência de personagens daquela minoria não é mais que uma obrigação (pessoas negras no Brasil são um grupo populacional gigante, por exemplo). Mas não deve ser vista como o resultado esperado, pois a presença feita de qualquer jeito só para se inserir algum grupo, também não é elogiável.

Na literatura, por exemplo, é muito comum vermos personagens negros que estão ali apenas para existirem, mas não apresentam nada mais em seu enredo. Isso é representação! A ausência é suprida, mas a presença continua problemática. Eu pergunto: ess presença  seria representativa? Os personagens não são plurais e complexos, não trazem subjetividades ou às vezes servem apenas de escadinha para que o protagonista (muito provavelmente representado por um personagem branco) cresça em sua própria história. Isso não é representatividade!

“A representatividade apresenta camadas, pluralidades e complexidades para aqueles personagens.”

É importante dizer também que nem sempre a representatividade traz um enredo positivo, afinal nós também temos nossos defeitos. E é essa a sua importância: que nos apresentem também na nossa complexidade. A representatividade apresenta camadas, pluralidades e complexidades para aqueles personagens (como o que é sempre apresentado para personagens que representam a hegemonia, como se só eles tivessem esse direito) que os tira do lugar comum e dos discursos nocivos.

E é por isso que acho importante que também critiquemos as representações e que não fiquemos acostumados àquelas que continuam a perpetuar discursos problemáticos.

Esse texto é baseado em outro, de mesma autoria, publicado inicialmente aqui, e é um norte da minha pesquisa de mestrado que deve sair em breve (este ano ou começo de 2021). Indico também a leitura de: Stuart Hall, Vera França e Rosane Borges (e muitos outros, mas por hoje é só!).

Olívia Pilar, autora de "Pétala".

Olívia Pilar
Mestranda em Comunicação Social na UFMG, estuda representatividade da mulher negra em produtos culturais. Escritora, publicou quatro contos independentes pela Amazon, “Entre estantes”, “Tempo ao tempo”, “Dia de domingo” e “Pétala”; participou de quatro coletâneas de contos também publicadas na Amazon e da coletânea jovem adulta da editora Plataforma 21, “Todo mundo tem uma primeira vez”