Foto da escritora Conceição Evaristo, autora de

Os 10 melhores livros de autores negros brasileiros dessa década

Por Sérgio Motta

15 de dezembro de 2019

O mercado editorial brasileiro ainda é, infelizmente, homogêneo e majoritariamente branco. Isto está provado pela pesquisa da professora da UnB Regina Dalcastagnè: o perfil de autores nacionais nas grandes editoras e seus personagens se mantém o mesmo desde pelo menos a década de 60. Nos últimos 10 anos, contudo, diversos autores negros —novos ou nem tanto — cavaram seu espaço no mercado e mostraram sua qualidade. Abriram novas portas na literatura nacional e nosso papel é não deixar que elas se fechem novamente.

Fonte: Pesquisa Personagens do romance brasileiro contemporâneo (Gráfico Revista CULT)

Por isso, decidimos fazer esse retrospecto e selecionar os 10 melhores livros de autores negros nacionais lançados na última década!

OK, falar em “melhores” é complicado. Ainda mais porque nossos autores negros estão de parabéns! Como já dissemos, muitas obras excelentes foram publicadas. Então, as dez que selecionamos aqui são algumas de nossas favoritas pela qualidade e também importância. Vamos lá!

“Não vou mais lavar os pratos”, Cristiane Sobral (2010)

Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis

Sinto muito
Comecei a ler

Cristiane Sobral nos presenteou no início da década com “Não vou mais lavar os pratos”, um livro de 123 poemas sobre o processo de resistência e de descoberta da própria existência das mulheres negras no cotidiano, nas relações familiares, na auto-estima, na criação. É simbólico este livro ser lançado em 2010, pois, mais que um livro, trata-se de um chamado ao levante negro e uma porta de entrada para reclamarmos nossa liberdade e lugar ao ao longo da década, influenciando muitas obras. Inclusive, as citadas nessa lista.

Leia o poema “Não vou mais lavar os pratos“.

“Insubimissas lágrimas de mulheres”, Conceição Evaristo (2011)

Conceição Evaristo dispensa apresentações. Aliás, caso ainda não tenha lido Conceição, pare agora e faça isso! Pessoalmente, considero Conceição Evaristo a maior escritora viva.

Foto da escritora Conceição Evaristo, autora de "Insubmissas lágrimas de mulheres" e "Olhos d'água"

E até agora nem comecei a falar do livro: “Insubmissas lágrimas de mulheres” dá valor e profundidade à palavra sororidade. Mas o melhor termo, determinado pela própria autora, é escrevivência. Ao falar sobre afetos, solidariedade e motivações das mulheres, especialmente mulheres negras, Conceição toca a alma de uma forma diferente. Um livro para ficar na história da literatura nacional.

Leia o livro “Insubmissas lágrimas de mulheres“.

“Desde que o samba é samba”, Paulo Lins (2012)

Um livro que encanta pelas cores, mas que angustia pela dureza, como o próprio Brasil; nada menos esperado do autor de “Cidade de Deus”. Este livro conta a formação de um dos principais pilares da Cultura Popular Brasileira, a mistura das músicas burguesas com as trazidas da África pela população negra escravizada, que surgiu no meio das noites cariocas. Que, além da boemia, boa música e grandes festas, também foi marcada por violência, abusos, prostituição e miséria.

Leia o livro “Desde que o samba é samba“.

“A Escravidão no Brasil (Como eu ensino)”, Joel Rufino dos Santos (2013)

O quanto você sabe do processo de escravidão no Brasil? E o quanto disso você aprendeu na educação básica? Provavelmente a resposta para ambos, ou pelo menos para a segunda pergunta, é “muito pouco”. A proposta da coleção “Como eu ensino” é levar para informações atualizadas sobre história e cultura pouco discutidas — ou quando discutida, apenas entre academicistas — para o ensino fundamental. Aliás, é fundamental.

O historiador e professor Joel Rufino dos Santos faz a sua parte trazendo nesse livro, relatos e notícias da época para mostrar como funcionava o modelo sociopolítico acerca da escravidão no Brasil e ambientar os alunos e leitores para que percebam como essa passagem vergonhosa de nossa história funcionava e ainda se reflete de maneira danosa e mortal hoje em dia no país. Por levar essa discussão para as salas de aula, este livro está aqui.

Leia o livro “A escravidão no Brasil“.

“Olhos d’água”, Conceição Evaristo (2014)

Aqui uma confissão: eu queria montar esta lista sem repetir autores. Mas… Conceição Evaristo aconteceu (e obrigado por ter acontecido!). Olhos d’água é um dos livros mais incríveis que já li. E que já reli. E que relerei novamente ao terminar esse post.

Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

No livro vencedor do Jabuti em 2015, Conceição Evaristo nos apresentam mulheres especiais, como Ana Davenga, Natalina e Cida e companhia são mais que familiares, são família. São as mulheres pretas que estão presentes nas nossas famílias, nas nossas referências, em nosso dia-a-dia. Mulheres pretas que abrançamos, conversamos, choramos junto, admiramos. Para mim, não só o melhor livro de 2014, como da década.

Leia o livro “Olhos d’água“.

“Quando me descobri negra”, Bianca Santana (2015)

Ilustração de uma menina negra de costas, presente no livro "Quando me descobri negra"
Tenho 30 anos, mas sou negra há dez. Antes, era morena.

Não faz tempo que me descobri negro. Não faz tempo que muita gente se descobriu negro. Há muita gente que ainda não se descobriu negro. Isso faz desse livro importantíssimo, pois ele fala do não-lugar do negro de pele clara. E este não-lugar é violento, pois ele está dentro de casa, está nas escolas, está em todos os ambientes e esferas da construção do indivíduo.

“Quando me descobri negra” tem uma importância única: pois ele fala da angústia do não-pertencimento e da carga da descoberta da negritude, sim, mas também nos mostra o alívio e orgulho que o “tornar-se negro” gera.

Leia o livro “Quando me descobri negra

“Heroínas negras brasileira em 15 cordéis”, Jarid Arraes (2016)

Por mais que essa expressão já esteja batida, preciso dizê-la: “Heroínas negras” explodiu minha cabeça. Pela primeira vez, vi mulheres negras históricas sendo retratadas. E a retratação não podia ser melhor! Ler seus cordéis traz leveza, um sorriso no rosto e história viva. Não só a das mulheres ali retratadas, mas da própria Jarid que, junto com Redemoinho em dia quente, As lendas de Dandara e Um buraco com meu nome, já é um marco histórico na literatura brasileira.

Recomendo: 1- ler este livro; 2- dá-lo de presente para alguém; 3- repetir os passos.

Leia o livro “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

“Assim na terra como embaixo da terra”, Ana Paula Maia (2017)

Foto da escritora Ana Paula Maia, autora de "Assim na terra como embaixo da terra" e "Enterre seus mortos", vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura.

Ana Paula Maia é a primeira e única bicampeã do Prêmio São Paulo de Literatura.  Digo mais: por dois anos consecutivos. Digo mais: “Assim na terra como embaixo da terra” é o livro recebedor do primeiro prêmio. Digo mais: é a atual campeã com seu segundo livro premiado, “Enterre seus mortos”. Digo mais… leiam!

Se você ainda não se convenceu que este é o livro de 2017 — e que deveria ler — vou falar um pouco do livro: “Assim na terra como embaixo da terra” é um livro de terror. Para homens pretos, o mais amedrontador desde Get Out (Corra), também de 2017. Não tem fantasmas, monstros ou assassinos em série geniais. Aqui, o terror é verdadeiro. A história se passa em um presídio isolado das vistas da população em um local historicamente conhecido por torturar e assassinar escravizados. E um carcereiro decide promover uma caça esportiva no local para matar o tempo. A caça? Os prisioneiros. O cenário mais perverso possível (atenção a palavra “possível”) para vidas negras.

Leia o livro “Assim na terra como embaixo da terra“.

“O sol na cabeça”, Geovani Martins (2018)

Geovani Martins é um autor nacional, preto, favelado, sem ensino médio, que trabalhava como homem-placa e, com apenas 26 anos,  lançou um livro de contos, com linguagem informal e regionalismos pela Companhia das Letras e publicado em mais de dez países. Para um autor que está à margem da margem da margem da margem ter chego aí, podemos dizer que “O sol na cabeça” não é pouca coisa.

E não se preocupe em ler com a hype lá em cima: o livro supera as expectativas.

As pessoas costumam dizer que morar numa favela de Zona Sul é privilégio, se compararmos a outras favelas na Zona Norte, Oeste, Baixada. De certa forma, entendo esse pensamento, acredito que tenha sentido. O que pouco se fala é que, diferente das outras favelas, o abismo que marca a fronteira entre o morro e o asfalto na Zona Sul é muito mais profundo.

Neste livro, Giovani retrata a Rio de Janeiro vivida por crianças, adolescentes e jovens adultos negros, tentando não virar estatística. Uma Rio de Janeiro diferente daquela que ouvimos nos clássicos da Bossa Nova composta nos bairros da burguesia carioca. Giovani não apela para violências gráficas ou para a militância para mostrar o cotidiano violento desses personagens, pois basta que eles estejam vivendo para que sejam  isolados, aprisionados, perseguidos, vigiados, cercados por muros, mesmo que não estejam dentro de uma cela.

Leia o livro “O sol na cabeça“.

“Rastros de resistência”, Ale Santos (2019)

Você provavelmente já conhece o Ale Santos, o @savagefiction no Twitter. Se não, uma rápida história: ele começou a fazer tweets falando de personalidades e povos negros esquecidos na história. Agora, ele é um dos mais reconhecidos comunicadores digitais negros.

Este ano, um livro com suas publicações foram reescritas e retrabalhadas em um lindo projeto editorial e viraram “Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro”. Selecionamos este livro como mais importante do ano por expandir e levar essas histórias que nunca protagonizaram os livros de história, ainda mais longe e mostrar que, sim, temos muito o que contar sobre nós.

Leia o livro “Rastros de resistência“.

Ilustração de Chico Rei, presente no livro "Rastros de Resistência", de Ale Santos.

Feita essa lista, queríamos deixar três considerações: primeiro, decidir o melhor livro de 2019 para nós, foi muito mais difícil que o de 2010, pois agora temos muito mais opções e todas de ótima qualidade;  segundo, escrevemos bem. Escrevemos bem, pois temos que escrever bem. Para autores negros terem oportunidades, não basta ser bom, tem que ser excelente; terceiro, muitos desses autores são jovens, escrevem contos ou poesias, vieram de fora da panelinha do mercado e mostraram seu valor. O que mostra que, por mais difícil que seja, cada vez mais o mercado literário dá um pouquinho mais de espaço para novas vozes mostrarem seu trabalho. Dito tudo isso, estamos bastante otimistas pelo que está por vir na próxima década, pois vamos invadir e ocupar cada vez mais esse espaço que sempre nos foi tirado: de estar nos livros.

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