Capa do livro

O perigo de uma história única (ou porque o Resistência Afroliterária existe)

Por Sérgio Motta

15 de dezembro de 2019

Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que eu gosto de chamar “o perigo de uma história única”.

Somos todos contadores de história. Escritores ou não, contar histórias é uma tradição e um valor em famílias, comunidades e pessoas negras. Valorizamos isso, talvez por não nos deixarem contar nossas histórias facilmente.

Não nos deixam contá-las.

O opressor conta por nós. O problema é que ele desenha uma caricatura generalizada do outro, que nunca é positiva e nem perpetua os valores que eles cultuam. Pois o outro é o estranho, o estrangeiro, o bárbaro. Os bons valores estão naquele que conta a história única, no protagonista, no herói, na norma. O outro é o vilão Este é o perigo da história única que Chimamanda traz em um TED Talks de 2009, agora em livro de bolso (pra você carregar MESMO para onde for) pela Companhia das Letras.

A história única não tem final feliz

Vou trazer aqui algumas reflexões sobre a história única: a palavra “vilão” vem de vila. Habitantes de vilas. E por que, então, essa palavra foi associada a algo ruim, a comportamentos não-aceitos? Bom, as histórias não foram escritas por eles, mas pelos nobres (definição literal de herói).

É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”.

É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro”.

Veja: na sociedade atual, no lugar da palavra “vilão” para se referir às pessoas que tomam atitudes repudiadas na sociedade, utilizamos “marginal”. Marginais nada mais são do que pessoas que vivem à margem da sociedade. Geograficamente, empurrados para os cantos mais escusos da cidade, quanto socialmente, tendo menos acesso à economia e cultura. Qual o grande problema de ser um marginal? Não são elas que contam as próprias histórias.

A história única não é sequer boa literatura, pois desumaniza. Cria personagens rasos, desinteressantes e descartáveis. O problema é que esses personagens são reais.

A mais perigosas das histórias únicas

O que me impressionou foi que: ela sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade.

Capa do livro "O perigo de uma história única", de Chimamanda Ngozi Adichie

Das histórias únicas, a que mais coleciona tudo que é repudiado, agredido e silenciado pela sociedade, é a história única negra. E vemos esse exemplo dentro da própria literatura. Segundo o periódico da Universidade de Brasília, Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura brasileira contemporânea, mais de 93% dos autores nacionais publicados são brancos. Isso se reflete nos personagens, grande maioria brancos também. Mas, sem dúvida o dado mais assustador, diz respeito às ocupações ou profissões dos personagens.

Entre personagens brancos, ocupações como donas de casa, escritor, professor, líder religioso e artista são a maioria. Já os (poucos) personagens negros são em maioria bandidos, empregados domésticos, escravos, prostitutas. Ou seja, enquanto os brancos tem ocupações ditas nobres e morais pela sociedade ocidental europeia (os contadores de histórias), os negros representam o repugnante, o vil. A literatura nacional também é responsável pelas violências que sofremos.

Mas a verdade é que temos muito mais para oferecer. É por isso que criamos o Resistência Afroliterária, para ajudar a reverter estes números, pois tudo o que precisamos é de uma oportunidade para contar nossas próprias histórias e acabar com a história única. E acreditamos que esse é um passo fundamental para acabar também com a opressão. E muito dessa motivação veio de “O perigo da história única”. Por isso, convidamos você a ler e assistir esse ensaio de Chimamanda Ngozi Adichie.

Ficha técnica

Título: O perigo de uma história única
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 64
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