Alê Garcia, criador do podcast

Livros de cabeceira de Alê Garcia, do “Negro da Semana”

Por Sérgio Motta

27 de abril de 2020

Livros de cabeceira. Uma expressão comum que significa aqueles livros que você está lendo ou que te marcam e você nunca deixa de estar com eles. Quando falamos de literatura negra para leitores negros, o termo ganha um novo significado. Não é só de cabeça, mas de pele, de alma.

Todos os dias, o Afroliterária fala de livros importantes para a comunidade negra e queremos receber indicações também. Começamos, então, a convidar escritores, artistas e influenciadores negros para conhecê-los através da literatura negra que os formam.

Talvez você conheça nosso primeiro convidado do podcast Negro da Semana, uma incrível produção que a cada episódio nos leva a fundo dentro da vida e obra, dos obstáculos e do que foi construído, de personalidades negras.

Foto de Alê Garcia, autor do podcast Negro da Semana e imagem de alguns episódios.

Alê Garcia, contudo, também é escritor. E sua literatura é tão precisa e cativante quanto a produção do podcast. Além de contos em coletâneas e revistas, como “Cachorro correndo sem cabeça” na Coleção Identidades, o livro de estreia de Alê Garcia, “A sordidez das pequenas coisas” foi finalista do Prêmio Jabuti e segundo lugar do Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional.

Como Alê Garcia se formou esse grande escritor? Quais as suas influências e inspirações? Vamos descobrir seus livros de cabeceira.

O espelho

Raramente nos vimos nos livros, principalmente durante nossa formação, que sequer sabemos que existem livros que nos representem. Qual o primeiro personagem ou livro que você leu e se sentiu representado e por que você se identificou?

O primeiro livro que eu de identifiquei se deu pela miséria de seus personagens, não pela negritude.

Como comecei a ler muito cedo, não havia livro juvenis com personagens negros que não fossem repletos de estereótipos ou coadjuvação, apenas.

Então, quando li “Tonico e Carniça, um clássico da Coleção Vagalume, criada para despertar o gosto em jovens leitores, vi ali uma trama cujo cenário se assemelhava ao cenário periférico da Restinga, bairro onde nasci e que já foi considerado, nos anos 80, como bairro mais violento de Porto Alegre.

Minha identificação foi geográfica, foi situacional, com aqueles garotos mestiços pobres tendo que lutar pela sobrevivência.

Um pouco mais tarde, os garotos negros de “Capitães da Areia“, de Jorge Amado, que mesmo em um grupo repleto de outros garotos miseráveis, eram os que mais sofriam.

O coração

Adentrar no mundo da literatura negra nos abre novos horizontes e algumas experiências são inesquecíveis. Qual livro da literatura negra você sempre carrega consigo e por que ele é tão importante?

Sem dúvida, “O olho mais azul“.  A autora, a genial Toni Morrison, consegue dramatizar com muita profundidade a devastação que o desprezo racial pode causar. 

Ela consegue nos envolver, nos emocionar e nos motiva a descobrir quem olhou com aversão tão grande para a menina negra Pecola Breedlove, e lhe fez desejar com tanto ardor ter os olhos azuis mais intensos para apaziguar seu sentimento de aversão por si mesma.

Toni Morrison escreve prosa como quem faz poesia. Não passa a mão na cabeça, sendo negra como seus personagens. Ao dramatizar a devastação que o desprezo racial pode causar, ela consegue se manter neutra, mostrando o olhar de desprezo que há sobre a menina Pecola, sem, no entanto, se tornar cúmplice. Mas sabotando e nos apontando as razões deste desprezo.

O necessário

Raramente autores negros tem grande prestígio (alguns como Machado e Mario de Andrade, tem reconhecimento, mas foram embranquecidos). Se dependesse de você, qual autor nacional negro seria mais conhecido e reconhecido?

Ana Maria Gonçalves. O que ela faz em “Um defeito de Cor” é de tamanha grandiosidade que não precisaria qualquer outra obra da sua criação para justificar sua importância e seu merecimento de figurar no panteão de grandes obras universais.

Vários são os autores estrangeiros que se tornaram célebres com apenas um grande romance. Ana Maria Gonçalves escreveu seu grande romance e, por isso, merecia ser muito mais conhecida, reconhecida, estudada e festejada.

A pele

Eu tenho uma tatuagem do autógrafo da Conceição Evaristo no braço, pois a obra dela pra mim tem um significado de pele, literalmente. Tem um autor negro que você tatuaria? Por que e como seria a tatuagem?

Toni Morrison. Seu rosto. Tudo o que ela representa: esta grandiosa mulher negra com seus dreadlocks, que conseguiu se tornar a primeira mulher negra ganhadora do Nobel, prêmio máximo da excelência literária. 

Tudo isso com um obra sem concessões, de altíssima literatura. Uma obra acessível e profunda.

Foto da escritora Toni Morrison, autora de "Voltar para casa" e "Deus ajude essa criança"

O presente

Começamos perguntando o primeiro e terminamos com o último: qual o último livro de autor negro que você leu/está lendo agora e o que achou/está achando?

“Marrom e Amarelo”, livro do meu conterrâneo Paulo Scott. Paulo Scott é um fenômeno à parte: sem dúvida, o autor brasileiro contemporâneo mais maduro e interessante que conheço. 

Ela construiu, na sua carreira, uma miríade de obras que tocam em temas realmente humanos: não o sofrimento do jovem autor burguês. Mas questões indígenas, políticas, e agora a questão negra.

Sendo negro, um negro claro, fez disto o leit motiv do seu livro, entrando nas minúcias de um Brasil de politicagem, com debates contemporâneos sobre todas as diatribes que regem as questões de gênero e raça no Brasil.

Ele faz isso com boa literatura, boa trama, envolvente, com um tom de voz todo seu. Espero que continue a enveredar por estes temas tão necessários — sendo uma voz negra na literatura sem concessões, sem clichês. Mas com muita inteligência e inventividade, que isto ele tem de sobra.

A inspiração

O Resistência Afroliterária se identifica muito com o Negro da Semana por ser um espaço para valorizar, reconhecer e divulgar cultura negra e surgiu uma curiosidade sobre o podcast: se você só pudesse fazer apenas mais um episódio do Negro da Semana, quem você escolheria?

Tim Maia seria o meu último, se isso fosse uma realidade. Ele conseguiu sintetizar, de forma nacional e genuína, um gênero que é todo nosso, todo negro: o funk. 

O funk que deriva dos anos 70, de George Clinton, Parliament Funkadelic. Um gênero que nos envolve nas peculiaridades da dança, do ritmo, da letra e de uma musicalidade que gerou todas as derivações que hoje regem a música pop.

Tim Maia foi um sujeito de uma genialidade incrível. Um autodidata, que foi buscar a sua paixão no exterior e a trouxe para o Brasil não como um simulacro, mas como se aquilo estivesse nascendo aqui e por ele.

Eu sou um grande fã dele e me emociona demais com a sua obra. Vastíssima obra. Talvez por isso o episódio esteja demorando tanto pra sair. Mas eu farei, sem dúvida.

E que não seja o último!

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