Ilustração afrofuturista de mulher negra com dreads, máscaras africanas, três olhos e dispositivos tecnológicos.

7 autores afrofuturistas que você precisa conhecer

Por Sérgio Motta

7 de junho de 2020

Embora “afrofuturismo” tenha sido cunhado por um escritor e crítico literário branco, Mark Dery, em seu ensaio “Black to the future”, tornou-se para nós um modo de nos ver no futuro. Afrofuturismo é o resgate ao nosso direito de sonhar.

Na literatura, o afrofuturismo toma forma quando descolonizamos nossa imaginação e enxergamos nossos rostos negros em universos fantásticos e nas diversas possibilidades de futuro. Mais do que uma ficção especulativa com protagonismo negro ou com estéticas baseadas em povos africanos, o afrofuturismo é o resgate dos valores e cosmossentido africano na nossa ancestralidade para, então, construir nossos futuros.

O movimento é, sem dúvida, uma das mais grandiosas representações do nosso poder. É por isso que trazemos uma lista com sete dos principais autores afrofuturistas que devemos conhecer.

Octavia E. Butler

Foto de Octavia E. Butler
“Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco.”

Embora tenha sido citada como uma das precursoras do afrofuturismo no artigo de Dery, há quem diga que Octavia E. Butler não é uma afrofuturista. Bem verdade que a obra de Butler retrata muito mais a vivência afroamericana do que pelos valores e cosmologias africanas em si. Porém, ao lermos Kindred, por exemplo, nos deparamos com um dispositivo de viagem no tempo diferente do que estamos acostumados na ficção científica euro-americana, mas muito elucidado na cultura africana: Sankofa. Em suas outras obras, ela também trata da compreensão enquanto negros para nos enxergarmos no futuro.

Além de “Kindred“, foram publicados no Brasil, os romances “A parábola do semeador“, “A parábola dos talentos“, “Ritos de passagem” e “Despertar“, além do conto “Sons da fala“, disponível gratuitamente, todos pela Editora Morro Branco.

Lu Ain-Zaila

Foto de Lu Ain-Zaila

Lu Ain-Zaila é a maior voz feminina do afrofuturismo brasileiro. Uma escritora carioca, que chamou a atenção pela duologia “Brasil 2408”, compostas pelos livros “(In)Verdades” e “(R)Evolução“. Esta é a primeira série futurista com uma protagonista negra na literatura nacional.

A autora também lançou a antologia “Sankofia: breves histórias afrofuturistas” e, o romance mais recente, “Ìségún“, lançado em 2019 pela Monomito Editorial.

Samuel R. Delany

Foto de Samuel R. Delany

Também citado no artigo de Dery, Samuel Delany é um dos precursores do afrofuturismo na ficção científica. Em sua obra é comum encontrar discussões sobre negritude, sexualidade, classes sociais, memórias e linguagem. Somente o romance “Babel-17” e a novela “Estrela Imperial”, ambos de 1966, foram publicados em português, em volume único em 2019 pela Editora Morro Branco. Estas duas histórias não são tecnicamente afrofuturistas, mas é notável a diferença de percepção e valores de mundo para a escrita de autores brancos da mesma época.

Destaque para “Babel-17”, que ganhou a segunda edição do Nebula em 1967 e foi indicado ao Prêmio Hugo no mesmo ano. Nesta história, Rydra Wong é a poeta mais popular das cinco galáxias conhecidas. Além disso, é especialista em códigos. Em estado de guerra, ela é chamada pelas Forças Armadas para quebrar uma codificação em ondas sonoras do governo inimigo, mas descobre que se trata, na verdade, de um idioma supersofisticado. O mais interessante é ver como grandes obras da ficção científica atual bebem dessa fonte chamada Samuel R. Delany, como “História de sua vida“, de Ted Chiang — conto que originou o filme “A chegada”.

Nnedi Okorafor

Foto de Nnedi Okorafor

Nnedi Okorafor não se considera afrofuturista. Ela prefere o termo que cunhou, africanofuturista (ou africanojujuista, em relação a suas obras de fantasia). A diferença é que, em suas palavras, o futurismo africano está especificamente e mais diretamente enraizado na cultura, história, mitologia e ponto de vista da África, que se ramifica na diáspora negra, e não privilegia ou centraliza a cultura ocidental. Ainda assim, ela apoia que os dois movimentos andem e se fortaleçam juntos. Por isso ela está nesta lista.

Seu livro “Quem Teme a Morte“, publicada no Brasil pela Geração Editorial, ganhou o World Fantasy Award de melhor romance e foi indicado ao Prêmio Nebula em 2010. “Bruxa Akata“, publicado no Brasil pela Galera Record, foi indicado ao Andre Norton Award. E a obra mais aclamada da autora, a novela “Binti“, ainda não publicada no Brasil, ganhou o Prêmio Nebula e Prêmio Hugo de 2016 e foi finalista do British Science Fiction Association Award.

Nnedi fala das raízes de sua literatura nesse TED Talks (tem legenda em português):

Fabio Kabral

Foto de Fabio Kabral

Fabio Kabral é a maior referência do afrofuturismo na literatura brasileira, junto com Lu Ain-Zaila. O autor hoje trabalha em seu universo Ketu 3, lar do povo melaninado, filhos dos orixás; uma metrópole governada por sacerdotisas-empresárias e tecnologias fantásticas movidas a fantasmas. Neste cenário, já publicou “O caçador cibernético da rua 13” e “A cientista guerreira do facão furioso” e atualmente trabalha no terceiro livro desse universo.

Kabral também ministra cursos e palestras sobre afrofuturismo e também escreve sobre o tema em seu blog.

N. K. Jemisin

Foto de N. K. Jemisin

N. K. Jemisin dispensa apresentações. Ela foi a primeira pessoa negra a ganhar o Hugo Awards na categoria principal e a única pessoa no planeta a ganhar o prêmio por três anos seguidos! É autora da trilogia “A terra partida”, composta pelos livros “A quinta estação“, “O portão do obelisco” e “O céu de pedra” publicados no Brasil pela editora Morro Branco. Suas obras falam sobre justiça social, preconceito, violência e comportamento humano.

Recentemente, lançou “The city we became” (ainda sem tradução em português), em que New York é consumida por um mal viral que pode acabar com a vida em toda a cidade. Não é o coronavírus, mas um espírito que propaga ódio, intolerância e preconceito; basicamente, o outro grande mal do momento em que vivemos.

Tomi Adeyemi

Foto de Tomi Adeyemi

Revelação dos últimos anos, Tomi Adeyemi é autora da trilogia de fantasia baseada na cultura iorubá “O legado de Orïsha”, que está sendo adaptado para o cinema pela LucasFilm. O primeiro livro, “Filhos de sangue e osso“, publicado no Brasil pela editora Rocco, foi finalista do Prêmio Nebula de 2018 e ganhou o The Andre Norton Award. O livro também ficou 50 semanas na lista de bestsellers do New York Times e foi eleito um dos melhores livros de 2018 na categoria infanto-juvenil pelo Entertainment Weekly, Amazon, Time, Newsweek e Publishers Weekly.

O mais curioso é que, embora seja descendente de nigerianos, Tomi Adeyemi conheceu o candomblé e a cultura iorubá em Salvador, ao fazer intercâmbio no Brasil. Por isso, como falamos em nossa resenha de “Filhos de sangue e osso”, a obra nos soa tão familiar.

Ela explica como teve a ideia do livro no vídeo abaixo:


E também, fica como menção honrosa os autores da “Coletânea Afrofuturismo“, uma antologia nacional independente organizada por Junno Sena, e Ale Santos (o @savagefiction), que publicou seu primeiro conto afrofuturista no livro “Todo mundo tem uma primeira vez“, da Plataforma 21.

Arte da capa: “Ioe Ostara”, de John Jennings; ilustra a capa do livro “Afrofuturism: the world of black sci-fi and fantasy culture“, de Ytasha L. Womack.