Colagem afrofuturista de um menino negro de um povo africano na favela, feita pelo perfil Colafro.

A importância de vivermos nossos afrofuturos

Por Sérgio Motta

4 de junho de 2020

O que você sonhava ser quando crescer? Como você se imaginava no futuro? Doutor, famoso, milionário, mudando o mundo? Talvez você conseguiu realizar, talvez não. Talvez você ainda vá conseguir. Talvez agora você tenha novas perspectivas de futuro. Mas, acredite, se você foi uma criança ainda no século XX, que podia sonhar com o seu futuro, você tinha um privilégio.

Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo
Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol
Vai vendo!
Mas o sistema limita nossa vida de tal forma
E tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver

Mano Brown, líder dos Racionais MC’s, já falou em entrevista que não esperava passar dos 25 anos.

Brown não estava sendo pessimista. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil (Campanha Vidas Negras – ONU). A cada quatro vítimas de homicídio no país, três são negras (Atlas da Violência 2019 – IPEA). A pobreza e a fome também matam majoritariamente pessoas negras.

Enquanto um jovem branco sonha em fazer mestrado, começar o seu negócio ou juntar seu primeiro milhão antes dos 30, um jovem negro tenta não morrer. Então, como imaginar um futuro se a estatística diz que você não vai ter um? Como sonhar se a carne mais barata do mercado é a carne negra?

Aqui entra o afrofuturismo.

Afropassado, afropresente, afrofuturo

Voltando a Mano Brown: “Não se acostume com esse cotidiano violento porque essa vida não foi feita pra você, rapaz. Você foi feito pra correr nos campos, andar de cavalo, andar entre crianças, cachorros, velhos, flores, natureza, rios, água limpa pra beber”.

Não se acostumar ao cotidiano violento, é imaginar um lugar em que pertencemos, uma vida em África. E cá estamos, em 2020, e ainda não vivemos em uma realidade afrocentrada. O mundo ainda nos violenta e nos mata diariamente.

Mas há algo diferente no ar e não podemos negar: Mano Brown chegou aos 50 anos. Elza Soares, com quase 90, mudou a letra para “a carne mais barata do mercado foi a carne negra, agora não é mais”, pois agora a carne negra luta.

A carne negra sonha

A verdade é que, por incrível que pareça, a gente está vencendo. Tentaram nos extinguir. Escravidão, racismo, violência, fome, auto-ódio, negação, traumas. Nada é à toa, um plano foi feito para que não existíssemos mais. Mas estamos aqui, vivos.

“A gente combinamos de não morrer”, escreveu Conceição, porque “malandragem de verdade é viver”, canta Brown, e hoje, “nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai”, canta Bia Ferreira. Marielle é presente, passado e futuro, é Sankofa.

Neste texto, citei e referenciei diversas vozes negras, mas evitei falar de livros ou artistas já identificados como afrofuturistas para mostrar que o afrofuturismo não se resume a um movimento estético ou a um subgênero da ficção especulativa com pessoas negras e estética afrocêntrica. Deixo esta função para outra publicação, em que falamos de autores afrofuturistas.

Afrofuturismo é um marco. É nele que visualizamos um herói com rosto africano e, através do cosmossentido africano, nos compreendemos enquanto negros e conseguimos imaginar nosso sucesso e ascensão.

Por isso, vamos lutar, resistir, queimar, mas não esqueçamos de sonhar e viver nossos afrofuturos.


A arte da capa é do @colafro. Sigam no Instagram!

E também fica de recomendação o podcast Afrofuturo, com a Morena Mariah, com quem aprendi muito sobre esse tema.