Conceição Evaristo no Prêmio Jabuti

Escritores negros são fodas! (Não porque são negros, mas porque precisam ser)

Por Sérgio Motta

10 de julho de 2020

Pense no mercado literário tradicional como uma grande festa VIP. Quando você olha a lista de convidados, uma coisa te chama a atenção: a maioria dos nomes são de origem germânicas, eslavas, italianas e libanesas.

Imagine agora que tem do lado de fora, tem um monte de Silvas, Souzas, Santos e Oliveiras que queria estar lá dentro. Eles vão dar seu jeito: alguns tentam enganar o segurança e passar de fininho, alguns vão pelas portas dos fundos e os demais fingem ser garçons. Precisam se marginalizar para entrar.

Mas todos notam os intrusos e eles têm apenas um segundo, até te escorraçarem, para provar que merece estar ali.

E provam.

E são expulsos do mesmo jeito.

Duas vezes melhor como?

Desde cedo a mãe da gente fala assim: “filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”. Aí, passado alguns anos, eu pensei: “como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses… por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?”

Vamos ser justos: algumas pessoas negras podem continuar na festa VIP. Desde que elas mostrem que é bom demais até para aquela festa. Entre os convidados, sabemos que há muitos que produziram obras nota 6,5 ou 7. A média não é das maiores. Mas é a suficiente, uma vez que os convidados são o padrão, a própria média. Mas, para os intrusos negros, se estiver abaixo de 10, melhor nem tentar.

O trecho acima é de um discurso de Mano Brown no DVD “Mil trutas, mil tretas”, dos Racionais MC’s logo antes da música “A vida é desafio”. Brown fala que o negro tem que ser o melhor de todos, porque se não formos, automaticamente somos reduzidos aos piores. E, ainda, caso consigamos superar todos os obstáculos e nos tornemos os melhores, a branquitude ainda vai achar um jeito de nos rebaixar.

Então, os negros nota 10 estão na festa. Mas não me venha subir no camarote, nem tomar os drinks especiais; se contente com a cerveja popular. E nada de pedir para o DJ tocar uma música também, nem dançar na pista. Fique no seu canto, e não atrapalhe. Lembre-se, essa festa não é para vocês.

Em junho de 2020, uma grande polêmica movimentou o mercado literário mundial. Diversos autores, utilizando a hashtag #PublishingPaidMe, publicaram os valores que ganharam das editoras pelas suas obras. Aqui no Brasil, todos os valores chocavam. Afinal, o mercado literário estadunidense e europeu é bem mais aquecido. Mas a principal discussão não pode se perder: os escritores negros recebiam em média um valor muito (MUITO) inferior aos autores brancos do mesmo gênero.

Foto de N. K. Jemisin

N. K. Jemisin, a primeira e única pessoa a ganhar de três Hugo Awards de Melhor Romance (e seguidos!) pelos livros “A quinta estação”, “O portão do obelisco” e “O céu de pedra”, revelou ter ganho U$25 mil de adiantamento para cada livro da trilogia, enquanto autores e autoras brancos do mesmo gênero e até editora, com menos alcance, vendas e reconhecimento, revelaram ter ganho U$ 600 mil ou mais por seus livros.

Jemisin não é exceção. Outras escritoras renomadas e supra-premiadas, como Malorie Blackman (“Jogo da velha”, “Duplo fio” e “Xeque-mate”), Roxane Gay (“Más feministas”, “Fome”, “Mulheres difíceis”) e Jesmyn Ward (sem obras em português), também sequer chegaram perto dos valores de autores brancos com trabalhos semelhantes — e, muitas vezes, menor repercussão.

No Brasil, em outro contexto, temos um cenário ainda mais complicado. O mercado literário é pobre comparado ao europeu ou estadunidense. Mas lembremos do conceito do salário psicológico, de W. E. B. Du Bois; apesar dos baixos valores que circulam no mercado brasileiro, há diversas outras formas de rebaixarem e desvalorizarem escritores negros.

Ana Paula Maia é a primeira e única pessoa a ganhar duas vezes seguidas o Prêmio São Paulo de Literatura com “Assim na terra como embaixo da terra” e “Enterre seus mortos”. Mas há publicações dizendo que seus livros tiveram repercussão por ter sido escrito por uma mulher negra — sendo que justamente por ter sido escrito por uma mulher negra, as chances de sucesso são menores, porque as oportunidades são menores. Geovani Martins, autor de “O sol na cabeça“, best seller da Companhia das Letras e traduzido para nove idiomas, foi questionado na FLIP de 2018 se seu trabalho só não era elogiado por ele ser um escritor favelado.

Geovani Martins, autor de "O sol na cabeça"

Quantos escritores negros e favelados tiveram seus trabalhos admirados na literatura?

Um dos poucos casos, foi o de Carolina Maria de Jesus e a obra “Quarto de despejo”. Mas as semelhanças entre Geovani e Carolina, separados por 50 anos, não acabam no fato de serem negros, pobres e favelados, mas na qualidade das obras de ambos. A obra de Carolina Maria de Jesus é publicada e reconhecida em mais de 40 países, mas a autora morreu pobre e isolada.

Outros fatores que aproximam Geovani e Carolina: ambos são exceções; ambos tiveram o direito de entrar na festa, mas são vistos como frutos exóticos lá dentro.

Machado de Assis e Mario de Andrade foram pintados de branco para entrar na história da literatura brasileira. Ainda que a negritude deles, à época, era uma carga pesada e dolorosa que eles tinham de carregar.

Conceição Evaristo, mesmo sendo consagrada e premiada, e considerada uma das maiores vozes vivas da literatura brasileira, também prestigiada internacionalmente, não tem obras em grandes editoras. Cidinha da Silva, apesar de ter publicado mais de quinze obras, todas são de editoras pequenas e nichadas. Jim Anotsu, autor publicado em treze países, ainda não caiu nos grandes ambientes de prestígio da literatura brasileira. Mesmo sendo autores com obras de qualidade indiscutíveis, são submetidos as mais diversas formas de desvalorizações e segregações por suas cores.

Dress code: White tie

Quando falamos de classes sociais, é comum vemos esse argumento de negação ao racismo na economia: “mas também tem pobre branco”. Já falamos do salário psicológico de Du Bois, mas também vale citar aqui Lázaro Ramos que já relatou que uma vez que se ascende socialmente, é que se percebe o racismo de fato, quando se olha para os lados e não vê nenhum de seus semelhantes.

A nossa festa VIP não é diferente. Ela é branca.

Ouvimos um argumento negacionista ao racismo parecido na literatura: “não escolho o livro pela cor do autor”. Mas o mercado escolhe para você.

Nos profissionais que trabalham no processo editorial, nos autores e nos personagens dos livros que chegam até a gente. A pesquisa da escritora e professora de literatura brasileira da Universidade de Brasília, Regina Dalcastagnè, mostra isso.

No seu artigo “Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura brasileira contemporânea”, a professora expõe que, entre as principais editoras do país, autores nacionais não-brancos são apenas 2,4% dos publicados. Isso reflete na representação dos personagens: um personagem negro para cada dez brancos, sendo a proporção ainda menor, falando exclusivamente de protagonistas.

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E o dado mais assustador está nas profissões e papéis destes personagens. Enquanto brancos são professores, artistas, escritores e donas-de-casa, seguindo a cartilha da nobreza europeia, os personagens negros são em sua maioria, prostitutas, bandidos, pessoas escravizadas, empregados domésticos (papéis repudiados ou inferiorizados, nessa mesma cartilha).

Em um país de maioria negra, é importante que escritores negros tenham mais oportunidades no mercado editorial. É importante que os personagens negros não sejam poucos, inertes ou utilizados somente em função de personagens brancos, nem reprodutores de estereótipos. É importante que o mercado literário veja as pessoas negras como pessoas, seja o público, os profissionais do livro e os personagens dessas obras.

É importante, além de tudo, mudarmos o dress code dessa festa. Não para black tie, pois ainda nos segrega e como canta Emicida, “minha cor não é uniforme”. Mas para o que quisermos e pudermos vestir. Não importa se é boné, bermuda e chinelo, expondo a realidade nas rimas do hip hop, funk e slams, ou se é vestidos, batas e turbantes com estampas de ankara, celebrando nossa ancestralidade com batuques e itans. O que importa é que tenhamos espaços para contar nossas histórias.

Assim, se você não quer escolher o livro pela cor do autor, escolha pela qualidade. Escritores negros já são nota 10. Se mudarmos o dress code, nem todos os autores serão nota 10. E não precisam ser. Importante lembrar que a norma humaniza.

Mas garantimos: as histórias que temos para contar são, pelo menos, duas vezes melhores.