A humanização das pessoas negras em doze histórias únicas

A humanização das pessoas negras em doze histórias únicas

Por Lorrane Fortunato

19 de abril de 2021

“As cabeças das pessoas negras”, de Nafissa Thompson-spires, é uma obra que apresenta uma terceira via possível — e necessária — para a representatividade de personagens negros na literatura.

Bom, se há uma terceira via, há duas anteriores. A primeira está mais do que na hora de acabar, mas não podemos deixar de falar dela, pois ainda é maioria na literatura: os estereótipos racistas. Já falamos sobre a pesquisa da professora Regina Delcastagne, “Entre silêncios e estereótipos: relações raciais na literatura brasileira contemporânea”, que mapeia personagens na literatura brasileira e mostra que, além da minoria absoluta de personagens negros em relação a brancos, os poucos que tem cumprem papeis condenáveis e repudiáveis pela sociedade, enquanto personagens brancos são em maioria bem sucedidos e bons exemplos.

A segunda via vem sendo construída por autores negres, como uma resposta. É a literatura que mostram que pessoas negras também são benevolentes, gentis, referências. É um dos princípios afrofuturistas, mas que se vê por todos os gêneros. Esta segunda via é de suma importância, pois ela não apenas é cada vez mais longa, mas ela é pavimentada sobre a primeira, encurtando o espaço dela.

A terceira, presente na obra de Nafissa, é a complexidade humana das pessoas negras. Pessoas influenciáveis, com personalidades diferentes, com diferentes realidades, classes e opiniões, por vezes distorcidas, com dores e valores distintos. Pessoas reais, complexas, humanas, que se assemelham pela pele e pelos danos que o racismo causa nas cabeças das pessoas negras.

Pega as visões

Você poderia pensar que, com suas lentes de contato azuis e cabelos loiros não naturais contrastantes com a pele cor de chocolate amargo mocha-choca-latte-yaya – e sim, há um certo julgamento no uso do pronome “você” –, Riley ficava apenas com mulheres brancas ou asiáticas, ou, talvez, que ele gostasse de homens. Mas, fosse qual fosse a sua aposta, você estaria errado, já que Riley era heterossexual e saía frequentemente com mulheres pretas.

O primeiro conto, que dá nome ao livro, deixa a intenção mais que nítida. Riley é um jovem negro que se sente bem com um estilo diferente e inesperado — no sentido de estereotipado — para pessoas negras. Ele gosta de mangás, animes, faz cosplay, não tem nada contra a cultura negra, não a nega, mas gosta de outras coisas também. O conto também apresenta Kevan, um artista independente negro que, por sua vez, usa o levante negro como ferramenta artística e política. Mas, ainda que sejam figuras divergentes, o racismo os golpeia de forma semelhante.

Outra forma interessante como a autora apresenta diferentes óticas são nos contos em sequência “Belles lettres”, “As defesas do corpo contra si mesmo” e “O ventriloquismo de Fátima: uma história de transformação”.

O primeiro fala sobre um momento conflituoso das mães de Fátima e Christinia enquanto as filhas eram crianças negras em colégios particulares majoritariamente brancos, os outros dois são narrativas sobre Fátima em diferentes momentos da vida, sendo que “As defesas do corpo contra si mesmo” mostra influências diretas do “Belles lettres” na criação e desenvolvimento dela, e o último também reflete os dois primeiros.

As perspectivas múltiplas, assim como a profundidade de visões são méritos de Nafissa Thompson-spires. Ela não é a primeira autora a explorar esta tal terceira via, claro, mas fazê-lo da forma intrigante que faz, na sua primeira obra, é um primeiro passo corajoso e certeiro para construir uma grande história na literatura.

Ficha técnica

Autora: Nafissa Thompson-spires
Editora: Nacional
Número de páginas: 120
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